Ressignificando símbolos

Cesar Augusto Cavazzola Junior

O homem é um ser que está intimamente ligado com símbolos e aquilo que eles representam.

A sociedade atual, diante do número de compromissos cotidianos, tem no “tempo” um símbolo que pode marcar muito do seu estado mental ao longo do dia. Se ele acorda pela manhã, toca o despertador, os ponteiros marcam com precisão quais são as tarefas que devem ser realizadas e o tempo hábil disponível para realiza-las.

Se o compromisso começa as oito horas da manhã, é preciso que o despertador acorde o sujeito no tempo que ele necessita para realizar as “entre tarefas”, ou seja, todas as ações que antecedem à chegada no local a que se destina. Higiene pessoal, café e deslocamento são marcados com base no tempo em que se leva para começar e terminar cada “entre tarefa”.

Tempo, assim, é um símbolo moderno, podendo terminar o estilo de vida que leva uma pessoa. Se esta trabalha numa metrópole como a cidade de São Paulo, deslocamento e o tempo necessário são determinantes para organização da vida diária.

Um sujeito que acorda atrasado, dificilmente consegue se manter espirituoso em função dos problemas que este atraso pode vir a causar na sua profissão.

A profissão é um símbolo sobre o qual muito se destina o valor de uma característica pessoal sobre a qual uma pessoa apresenta como parte de sua personalidade.

As profissões, mais variadas possíveis, possuem determinado status dependendo do meio em que estão inseridas.

Um diploma de Direito no meio duma floresta vale quanto? Mas um advogado na cidade pode ser mais útil…

Quando estudadas culturas antigas, como, por exemplos, os antigos povos da mesopotâmia e demais reinos na antiguidade, as culturas são vinculadas a símbolos que comportam elementos da natureza, como o sol, a lua, as estrelas, a natureza.

Para uma pessoa que mora num grande cidade, entretanto, tais símbolos pouco importam, pois o tempo está muito mais em destaque do que os demais.

Para o agricultor, a chuva pode representar um sinal de boa safra, como também de destruição, em caso de enchente. Além disso, as plantas precisam de água na medida certa. Plantando uma horta com mudas muito pequenas, a dosagem de água é calculada para que, literalmente, a planta não se afogue, prejudicando o trabalho do colono. Ainda, num dia de muita chuva, o agricultor não pode sair e realizar as suas tarefas habituais na lavoura. Neste caso, a chuva implica em se ter um dia de trabalho ou não ter.

No entanto, analisando o modo de vida que as pessoas têm nas cidades, pouco importa um dia de chuva: ela terá de trabalhar mesmo assim, sobretudo porque as suas atividades são desenvolvidas em ambientes fechados, protegidos de tempestades ou de outras mudanças climáticas.

Assim, o contato mais com atividades ligadas a natureza apresentam, consequentemente, maior ligação do homem com símbolos naturais. Como a população se tornou predominantemente urbana, diminuíram-se, assim, tais representações, embora isso não signifique, de nenhum modo, que a simbologia em torno da vida tenha deixado de existir.

Os símbolos, assim, apenas mudaram de forma, mas ainda compõe o imaginário dos homens, independentemente do ambiente em que se encontrem.

Muito do que se compõe o imaginário atual está representado por meio de conceitos. Um conceito não deixa de ser um símbolo. Palavras como feminismo, individualidade, homem, mulher, família, religião (igreja, bíblia, cruz, santo, padre), saúde, cultura, educação, literatura, conforto, salário, aborto, drogas, violência, poder, corrupção, urna, democracia, política, economia, direitos humanos, marcas, fotografia, adorno.

Pegando o mar como exemplo, na leitura de Homero ou Camões, trata-se de um símbolo do desconhecido. O mar, que representa a natureza em seu estado indomável, colocava em dúvida o retorno com vida dos antigos navegadores, o que já não ocorre atualmente.

A humanidade aprimorou seus instrumentos de análise meteorológica. Assim, um barco em alto mar é capaz de prever e alterar seu curso de acordo de como as previsões climáticas do ambiente estão.

Uma pessoa que faz uma viagem de barco, nos dias de hoje, vai com a mais absoluta certeza de que irá voltar com vida, embora acidentes possam acontecer. No entanto, de baixa probabilidade. Antigamente, não era assim.

O mar era símbolo do desconhecido, de possibilidades, da riqueza ou da pobreza, da vida ou da morte, do destino que estava guardado para os homens.

Atualmente, o mar não passa de um elemento presente no período de férias que as pessoas têm após doze meses de trabalho.

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