Quando o símbolo é virado do avesso

Cesar Augusto Cavazzola Junior

Nem tudo aquilo que está no mundo pode ser descrito por palavras. Há cenário sobre os quais o homem é incapaz de descrever, embora tendo experimentado a situação, mas não encontra símbolos capazes de fazer uma analogia ou buscar qualquer outro sentido para a situação.

Um exemplo que é possível de ser dado é com o problema que se tem enfrentado nas instituições de ensino. Há uma série de equívocos sendo propagados como uma verdade que deveria ser universalmente aceita.

O marxismo é uma ideia altamente propagada no ensino superior atual, sem falar daqueles que abordam o assunto, mesmo que indiretamente, em séries anteriores. Isso pode acontecer facilmente nos livros escolares.

O acidente de Chernobil, por exemplo, é apresentado nos livros de história como um caso sobre o qual a energia nuclear pode ser a geradora de grandes atrocidades à humanidade. Consequentemente, gera-se no estudante um repúdio à energia nuclear, mesmo que indiretamente.

Só de relatar uma situação no qual um conjunto de seres foram prejudicados, o agente causador gera repúdio sem mesmo que se aborde, em contraponto, os benefícios do uso correto.

Sabe-se que um veneno pode tanto matar quanto curar: isso vai depender da dose que se ingere.

Pílulas podem ser utilizadas para induzir o sono num paciente com dificuldades de dormir, contudo, se ingerir o frasco inteiro de uma vez, pode facilmente levá-lo à morte.

No caso da energia nuclear, é difícil de encontrar um adulto que tenha visto o assunto no colégio e que defenda o seu uso nos dias atuais.

Assim, Chernobyl tornou-se um símbolo do efeito do uso da energia nuclear.

Uma pessoa pode experimentar um fato tão horrível em sua vida que se torne capaz de descrever. Pode acontecer sobretudo quando não se tem uma situação parecida ou nem ao menos havia ouvido falar.

Se pegar índios que nunca tiveram contato com o homem e lhes forem apresentados um microcomputador, como é que eles descreveriam aquilo?

Assim, pode-se perceber que nem tudo o que se apresenta diante dos olhos pode ser descrito em palavras, principalmente escrito.

Sabe-se que o mundo é um lugar que apresenta um grande número de línguas distintas. A maior parte delas não possui estrutura na forma de signos linguísticos, ou seja, não possuem representação gráfica para aquilo que está sendo dito. Trata-se, por isso, de comunidades nas quais predomina uma tradição oral na comunicação e, consequentemente, na aquisição de conhecimento.

Costuma-se afirmar que o maior dos problemas que o estudante atual enfrenta é a falta de leitura. No entanto, trata-se de um erro pensar assim. Atualmente, lê-se muito mais do que no passado. Um estudante hoje passa o dia com o celular próximo de si, tecnologia que lhe permite, por meio da internet, acessar o conteúdo presente da rede. É claro que isso mostra que quantidade não necessariamente implica em qualidade.

Ainda, outro problema decorre do uso desenfreado da tecnologia.

O microcomputador pode armazenar uma grande quantidade de arquivos, que um leitor normal poderia passar mais de uma vida lendo e ainda assim teria conteúdo para leitura.

É comum observar que alunos guardam arquivos nos seus computadores com o intuito de adquirir aquele conhecimento. No entanto, o ato de armazenar gera um efeito de sentir que já de algum modo se apropriou daquele conhecimento – o que é um terrível engano.

Ter o documento armazenado apresenta ao consciente do indivíduo a ideia de que possui aquilo e que pode acessá-lo quando quiser. Agora, em contraponto, se retirar o computador com o conteúdo, é quase como se tirasse o cérebro do estudante.

Certa vez em sala de aula eu disse que para “tirar o cérebro” de um estudante basta que lhe impeçam de acessar o Google. Ironia a parte, com alta dose de exagero e sentido figurado, não deixa de ter certa verdade escondida por trás do tema.

Então, não há de se negar que, embora a tecnologia atual proporcione o acesso a todo o conhecimento disponível na rede, pode dar uma falsa sensação de que aquele conhecimento lhe pertence. E se esse conteúdo for apagado?

Já observei colegas que lecionam com o uso contínuo da tecnologia, por meio de slides e retroprojetor, enfrentam sérios problemas quando o arquivo falha. Não conseguem dar aula, verdade seja dita. O que isso mostra? Evidentemente, que na memória é que o conteúdo não está presente. Se confiar na tecnologia demasiadamente, a memória enfraquece, sendo que a confiança na memória é fundamental para que se enfrente uma plateia ansiosa por uma aula decentemente bem dada.

Sem contar que a função do professor é relatar as experiências profissionais que o tornaram aquilo que é hoje. Para estar naquele cargo, ensinado, ao menos em tese, não foi colocado de paraquedas naquele lugar, mas fruto de um período de qualificação como profissional. Enfraquecendo a memória, por isso, impede que se ensine as experiências de vida capazes de fazer uma ligação com aquilo que se está ensinado no campo teórico.

Retomando o raciocínio…

Carl Jung aborda a questão da simbologia como elemento de compreensão individual, jamais podendo ser apresentado em sentido universal.

Por exemplo: pega-se uma pessoa que foi criada durante a vida numa fazenda e depois vai para a cidade. Se essa pessoa enriqueceu sua experiência com boas sensações vividas naquele ambiente, sempre que algo fizer lembrá-lo do campo, as memórias serão boas. No entanto, se viveu experiências traumáticas, o relato que se vai ouvir certamente será em sentido negativo. Um tanto óbvio, pode dizer.

Jung, assim, não dissocia o sonho de uma experiência consciente para o inconsciente.

Sem contar que a ciência ainda está engatinhando no estudo do inconsciente, sem contar das memórias que lá estão guardadas.

Afirma-se, por exemplo, que tudo aquilo que foi visto ou passou pelo homem através dos seus sentidos pode ser recordado. Não se recorda conscientemente por dois motivos principais: ou por ter sido uma experiência traumática que, seletivamente, o consciente apagou, ou mesmo pela dificuldade de acessar a informação.

Quando se estudam trabalhos sobre memorização, o que se ensina é como associar aquilo que se quer recordar como estratagema para recordar do assunto. A memória funciona por associação. Assim, uma maneira eficiente de guardar um conteúdo é associando com algo fácil de se lembrar.

Se alguém conhece uma pessoa com nome de Rafael, por exemplo, como seria possível guardar de forma mais fácil este nome? Pode-se pensar se possui algum amigo chamado de Rafael. Cria-se um vínculo mental entre as duas pessoas. Assim, quando pensar neste, busca na memória pelo outro, fazendo com que o consciente recorde do nome.

Se partir do ponto de vista de Jung, que o símbolo representa uma experiência pessoal, pergunta-se: a individualidade pode colaborar ou prejudicar a análise de significância?

A linguagem é um símbolo. Através da mesma é que os homens se comunicam, trocam informações, transmitem conhecimento.

Agora, pegando como exemplo o comunismo. Há muitas histórias mal contadas sobre o assunto, visto que o comunismo é um projeto de poder, é um movimento.

Agora, no entanto, uma série de lideranças comunistas são tratadas como mártires. Che Guevara é um exemplo típico na América Latina. Não são poucos os estudantes que usam camisetas com a sua imagem. Pura propaganda.

Biografia recentes apontam relatos de pessoas que conviveram com ele, relatando uma série de eventos e comportamentos tiranos, violentos, carnificinas, sem qualquer respeito com o próximo. Como pode então um sujeito sem escrúpulos para causar mal ao próximo ser admirado por muitas pessoas? Talvez por falta de conhecimento da sua história, ou até mesmo porque ele teve sua biografia replicada de forma equivocada.

Dificilmente vamos encontrar numa pessoa só comportamentos ruins. Pode ser que, em alguns momentos, tenha sido caridoso, ajudado alguém, nem que sendo falso na situação. Poderia organizar uma biografia desse sujeito apenas com experiências positivas sobre seu comportamento.

O que se quer dizer com isso é que a linguagem, fruto de contato e interação entre os seres humanos, é um elemento altamente manipulável, que vai depender da honestidade do autor no seu relato.

Certa vez, no meu exame de faixa preta, contestei a banca de avaliadores sobre um fator histórico da Coreia que era ensinado de forma equivocada. Um deles afirmou: “De fato, o papel aceita tudo”.

O conceito, portanto, é um relato de uma experiência. Não perde o aspecto subjetivo, por maior que seja o esforço do autor. A responsabilidade do escritor é tamanha: a linguagem é um assunto muito sério para ficar brincando com a cabeça das pessoas.

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